
A música de estreia do Pearl Jam nasceu de uma ferida pessoal de Eddie Vedder, mas o público transformou seu sentido para sempre.
Raramente um clássico do rock escondeu tanto sob uma aparência de festa. Quando "Alive" saiu como o primeiro single do Pearl Jam em julho de 1991, a maioria das pessoas ouvia o riff monumental e o refrão de estádio e sorria sem saber. O que Eddie Vedder colocou naquelas letras era outra coisa inteiramente: uma ferida aberta de infância, um exorcismo disfarçado de hino.
"Foi uma ficção baseada na realidade", Vedder explicou em certa entrevista. "De certa forma, essa música foi um jeito de tirar isso de dentro."
A história por trás de "Alive" começa antes mesmo do Pearl Jam existir. A base musical, originalmente chamada de "Dollar Short", já havia sido tocada ao vivo em Portland pelo Mother Love Bone, um grupo liderado por Andy Wood que reunia boa parte da futura formação do PJ. Stone Gossard estava lá e lembrou que "era exatamente o mesmo arranjo, mas [o cantor] Andy Wood tinha um conjunto de letras completamente diferente".
Com a morte de Andy Wood, a música ficou parada numa pilha de demos. Gossard a enviou pra Eddie Vedder em San Diego, que estava num momento de efervescência criativa. Vedder pegou a fita e foi surfar no Pacífico. "Tudo se encaixou como um bloco, dentro da água", ele contou. "Não peguei nenhuma onda naquele dia, mas bem, uma: a grande."
O que Vedder colocou nas letras era o retrato de uma criança enganada que descobre que o homem que ela chamava de pai não era seu pai biológico, e que seu pai de verdade havia morrido. A vida real de Eddie espelhava tudo isso: ele foi criado por um padrasto sem saber, e soube tarde demais que seu pai biológico havia morrido de esclerose múltipla.
"Acho que eu só queria saber se ele me amava, e o quanto", Vedder refletiu. "Quando a adolescência chegou, eu não confiava em nenhum adulto."
O refrão eufórico, então, não era celebração. Era catarse, um grito de quem sobreviveu ao que veio antes.
Logo após o lançamento do single, o Pearl Jam gravou o icônico clipe em preto e branco no RKCNDY, uma casa íntima de shows em Seattle. O diretor foi Josh Taft, amigo de longa data de Gossard que depois trabalhou nos clipes de "Even Flow" e "Oceans". Em vez de playback, a banda tocou de verdade, capturando a ferocidade dos primeiros shows. O clipe também registrou uma imagem que se tornaria recorrente: Vedder pendurado de cabeça pra baixo na estrutura de iluminação.
"Víamos nossos amigos fazendo clipes, tipo Soundgarden e Alice in Chains, e parecia absolutamente ridículo gastar tanto dinheiro", disse Jeff Ament. "Um clipe podia custar tanto quanto todo o orçamento de gravação. Fomos até o Josh e dissemos: 'Não queremos gastar mais de vinte mil dólares', e ele disse que conseguia."
O que esse texto evoca, e que qualquer fã veterano já sabe de coração, é a virada: quando o público reinterpretou "Alive" como hino de sobrevivência e superação, Vedder aceitou a releitura. A maldição não sumiu com a canção, mas os fãs pegaram aquelas palavras e fizeram o que a arte às vezes consegue: transformaram o peso num combustível coletivo.
via Louder (UK)
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