
Em 1995, Neil Young chegou em Seattle com só uma guitarra e um amp, e saiu com um álbum gravado com o Pearl Jam.
Em janeiro de 1995, com menos de uma semana entre a ideia e o estúdio, Neil Young apareceu em Seattle com uma guitarra, um amp, e nenhum roadie. Assim começou o Mirror Ball, um dos álbuns mais singulares da discografia de qualquer um dos dois.
Young já era realeza do rock há décadas, mas para gravar com o Pearl Jam resolveu deixar o status na entrada da cidade. A intenção era clara: ele queria que o disco soasse como o Pearl Jam, a banda que, àquela altura, era uma das maiores do mundo. "Decidi que, em vez de adicionar a complexidade de usar meu próprio produtor, usaria o deles", Young explicou no documentário Pearl Jam Twenty. "Nos livramos de tudo que era individual no meu lado, de todos os meus acessórios, então fui lá por conta própria... A ideia toda era fazer o mais rápido e fresco possível. Não queria que se arrastasse."
A história começou num show beneficente chamado Voters For Choice, em Washington D.C., em meados de janeiro de 1995. Pearl Jam estava no mesmo bill. Young tentou tocar sua nova música, Act Of Love, com o Crazy Horse e não ficou satisfeito com o resultado. Chamou o Pearl Jam pra ver o que eles faziam com ela. O que saiu foi bom o suficiente pra convencer Young de que valia ir pro estúdio. "A gente mandou muito bem", ele disse na época. "Tínhamos dois dias no estúdio e fizemos isso cerca de uma semana depois."
O trabalho aconteceu no Bad Animals Studios, em Seattle, o estúdio das irmãs Nancy e Ann Wilson do Heart. O que começou como um projeto de duas músicas, Act Of Love e a Song X (de pegada quase sea-shanty), se transformou em algo maior. "Neil tinha seu barco em Seattle. Ele voltava pro barco toda noite durante quatro ou cinco noites e escrevia duas músicas", lembrou o baixista Jeff Ament.
O coletivo gravou sete músicas em dois dias. Eddie Vedder, que lidava naquele período com um problema de stalking, ficou de fora das primeiras sessões. Isso gerou um dos comentários mais memoráveis do disco. "Neil é o único que seria um grande fã da banda e depois se livrava do Eddie", disse Stone Gossard, bem-humorado.
O álbum foi concluído em meados de fevereiro, numa segunda rodada de gravações que já contou com Vedder. Ele co-escreveu a expansiva Peace And Love, e comandou duas músicas que acabariam no EP irmão Merkin Ball, o registro paralelo que o Pearl Jam lançou no mesmo período.
Para Ament, aquela parceria chegou em hora certa. A banda estava sufocada pelo próprio peso. "Ele nos mostrou que dá pra escrever músicas boas e diferentes num período muito curto. Não poderia ter vindo em hora melhor pra gente. Estávamos sentindo a pressão de ser uma grande banda de rock naquela época e, de certa forma, provavelmente pusemos essa pressão em nós mesmos. Ele nos fez perceber que não era tão importante assim. Não é coisa de vida ou morte: é só música."
O PJ já tinha histórico com Young. Rockin' In The Free World era parte do setlist deles faz tempo, e os dois se encontraram no palco do MTV Awards em 1993. Mas o Mirror Ball foi outra coisa: a chance de duas gerações diferentes do rock americano trocarem muito mais do que uma jam.
Uma coisa, aliás, que a banda lamenta até hoje: não ter colocado o nome deles na capa. Young preferiu que o crédito fosse só dele, e o Pearl Jam aceitou. Olhando pra trás, é uma das poucas ausências que marcaram.
via Louder (UK)
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